Não monogamia é coisa de mulher preta?

Relativamente, temos poucas referências (positivas ou negativas) sobre relacionamentos não-monogâmicos. A gente vai procurar alguma coisa pra ler na internet e caímos quase sempre na fala de alguma mulher branca heterossexual. Carecemos de ler e ouvir mulheres negras que se relacionam com outras mulheres sobre suas experiências com relacionamentos sem contrato de exclusividade. Carecemos de falar sobre isso on e offline.

Inclusive, a primeira vez que me deparei com esse assunto foi lendo sobre o engodo do amor romântico nesse artigo aqui, de 2010, de uma mulher branca falando sobre a perspectiva de relacionar-se com homens. E já nessa época, foi para mim uma leitura revolucionária, porque concordava com muitos pensamentos que eu vinha articulando, mas que ainda não estavam muito organizados.

Antes disso, meu primeiro relacionamento estável tinha, desde o começo (2006), um acordo que não previa exclusividade. Dos 19 aos 23, recém saída da casa dos pais, no furacão que é ser universitária subempregada morando sozinha em uma cidade como São Paulo, eu já vivi a experiência de uma relação não-mono. E em todos os ambientes que eu circulava, o que ficava sempre demarcado era ser considerada promíscua, ou corajosa (louca) por viver esse tipo de relação.

Pensa só: preta, sapatão e ainda metida a ‘dividir’ sua mulher com outras. E sempre me faltavam referências de outras pessoas, principalmente mulheres, que vivessem essas relações, pra eu poder pensar junto sobre como construir uma relação ética e honesta, sem me machucar, ou à minha companheira, ou qualquer outra mulher com quem eu me envolvesse, ou às mulheres que se relacionassem com minhas parceiras. Só vivia cercada de mitos, julgamentos, da minha inexperiência e de uma autoestima pelas tabelas.

Me lembro de um texto da Jéssica Ipólito (a Gorda & Sapatão), que foi o primeiro em que eu vi alguém falar algo como não é porque eu estou em uma relação não-mono que eu não sinto ciúme ou insegurança e fico sempre de boa. Inclusive esse é um dos mitos que precisam ser desfeitos, de que quem experimenta viver relações livres dá conta de saber que a outra pessoa transa e deseja e se apaixona por outra(s) sem sentir nadica de ruim.

A gente sente ciúme sim, a gente fica insegura, se compara, a gente não dá conta sempre, mas a gente está disposta a lidar.

Isso não é sobre dar conta ou não, é sobre estar disposta a lidar com os sentimentos menores como ciúme, insegurança, o sentimento de posse, e ressignificá-los. Não é sobre estar pronta. É sobre topar ser honesta e construir uma relação baseada na parceria e sem romantização. É sobre saber que o corpo da outra não é meu, e que ela transar ou se apaixonar por outra pessoa não me diminui. Sobre ter cuidado com a outra. Sobre não competir. Sobre ter responsabilidade afetiva, ao mesmo tempo que não projeta suas expectativas na outra.

É sobre saber que não existe uma pessoa perfeita que vai se encaixar em todas as minhas expectativas, que vai atender todos as minhas necessidades de afeto, de sexo, de risadas, de tempo, de estabilidade financeira, e que tudo bem querer coisas diferentes de pessoas diferentes. É uma responsabilidade imensa pra uma pessoa, sozinha, dar conta de mim inteira. Eu sou imensa, complexa, intensa, difícil à beça, pra ser resolvida por uma pessoa só. Se for pra eu ser resolvida por apenas uma pessoa, essa pessoa serei eu mesma.

Mas, veja, nada disso aqui é sobre imposição, também. Não podemos desconsiderar que, historicamente, a mulher negra não é digna de afeto. Para falar sobre essa afetividade livre, a gente precisa primeiro ter direito à afetividade. E aqui é sobre afetos de diferentes lugares: de amigos, da família, de relacionamento amorosos (independente do gênero com quem você se relaciona), de onde (não) vier.

E é nessa parte da conversa que entra a grande rejeição de mulheres negras à não-monogamia. Primeiro preciso ter uma relação saudável, pra depois pensar em fazer outras coisas com ela. Mas daí precisamos pensar na multiplicidade de mulheres negras. A experiência de uma mulher hétero é diferente de uma lesbi. Tem que considerar a afetividade da gorda negra, da sapatão que não performa feminilidade, DAS MULHERES TRANS (quem aí já amou uma travesti?). E faltam tantas referências. Estamos cercadas de mitos.

Numa relação entre mulheres, existem mitos que dizem que não existe hierarquia, não existe abuso, não existe opressão. Ao falarmos sobre relações não-mono entre mulheres, estamos, inclusive, abandonando modelos heterocisnormativos de relacionamento, capitalistas, europeus, de ter uma família nuclear tradicional papai-mamãe-filhinho para transmitir nosso patrimônio.

Como lésbica, na minha relação não tem papai, e no meu caso, não vai ter filhinho. Como negra, ter propriedade pra herdar não tem sido a nossa regra histórica.

E voltamos à ideia de que construir uma relação não-monogâmica entre mulheres, negras ou não, passa por desromantizar o ideal de amor, de saber que a outra pessoa tem defeitos, e que a gente vai passar pelas feiuras da outra, como ela vai passar pelas minhas. Passar por coisas que eu não curto muito, mas é isso, porque ela não é minha princesa encantada, mas uma pessoa com necessidades, virtudes e vícios. Se o sujeito negro tem sido desumanizado ao longo da história, passa pela humanização da negritude aceitar também as nossas imperfeições. Se somos pessoas, vamos errar muitas vezes, CERTEZA!

Construir uma relação não-monogâmica entre mulheres passa por construir, antes de qualquer coisa, uma relação honesta e sem hierarquias, de parceria, de olho no olho, de cuidado com a outra, e de liberdade. Minha preta fecha comigo em qualquer situação, não importa o que. Ela não precisa de mim, e eu não preciso dela. Ela não me tem, e eu não a tenho. Mas a gente se escolheu. Eu posso viver sem ela. Mas com ela é mais gostoso.

Meu ciúme tá aqui, minha insegurança também. Mas vou toda quarta-feira na minha analista descobrir de onde vem esse medo de perder, esse sentimento de que ela é minha e ninguém pode tocar. Porque independente do que ela fez durante o dia, a noite ela tá na nossa cozinha, estamos juntas fazendo o jantar, e curando as feridas uma da outra, e rindo muito sempre. E se ela tiver que me deixar, seja por quem for, não vai ser a monogamia que vai impedi-la de querer ir embora.

Não me importa com quem ela dorme, por quantas pessoas ela vai se apaixonar pela vida. A gente tá construindo a vida juntas. Eu quero mais é que ela goze mesmo, que se apaixone mesmo, que viva coisas boas. Comigo ou sem mim. Comigo E sem mim. E seja tão feliz quanto ela puder. Seja sempre sua melhor versão. E que sorte a minha poder vê-la amadurecer, envelhecer. Testemunhar a beleza que é uma pessoa vivendo. E viver ao lado.

As mulheres negras que amam mulheres já estão vivendo a não monogamia. Não existe uma forma única de fazê-lo, e cada pessoa, dupla, trio, grupo deve encontrar seus formatos e acordos de forma em que todas as pessoas envolvidas se sintam bem e possam se reconstruir com muito amor e respeito.

*Esse texto é uma atualização de conteúdo que escrevi em 2019, porque de lá pra cá algumas coisas já mudaram. Mas a essência é a mesma, cultivar o afeto e o prazer entre mulheres pretas como forma de sobrevivência e em busca do bem viver.

Jornalista e artista

2 Comentários

  • Texto me levou para um lugar de muita reflexão, obrigada! Lindo o texto.

  • “Meu ciúme tá aqui, minha insegurança também. Mas vou toda quarta-feira na minha analista descobrir de onde vem esse medo de perder, esse sentimento de que ela é minha e ninguém pode tocar. Porque independente do que ela fez durante o dia, a noite ela tá na nossa cozinha, estamos juntas fazendo o jantar, e curando as feridas uma da outra, e rindo muito sempre. E se ela tiver que me deixar, seja por quem for, não vai ser a monogamia que vai impedi-la de querer ir embora”

    Obrigada pelo texto e reflexões, Zaira! É preciso muito olhar pra dentro, bem como disposição e coragem para se reconstruir numa nova perspectiva. Obrigada pelo desafio proposto…

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