Laerte: “Modelo Vivo” e a ampliação do corpo

O livro “Modelo Vivo”, de Laerte, é um conjunto de desenhos (usando a palavra mais citada pela própria artista na Apresentação da obra) e de algumas de suas histórias em quadrinhos dos anos 80 e 90, incluindo uma inédita. Com organização conjunta de Toninho Mendes, ex-editor das revistas da Circo Editorial, foi publicado pelo selo Barricada (da editora Boitempo) em 2016.

Tão variada e rica como toda produção de Laerte, este mesmo texto de introdução já indica a razão de existir da publicação, se é que se faz necessário: apresentar ilustrações feitas durante um curso livre montado pela autora e seu filho, Rafael Coutinho, em 2013. Todas são feitas com modelos, servindo de base e caminho para que Laerte pudesse se reencontrar no desenho “de gente”.

Os desenhos apresentam pessoas em variadas poses, com diferentes constituições, retratados pela agilidade dos traços de Laerte – trazendo um dinamismo e um movimento que se casam muito bem com as histórias em quadrinhos. Essa mesma fisicalidade ao desenhar faz sentido e é amplamente utilizada em “Aquele Cara” – um conto gráfico que não usa nenhuma palavra para se fazer entender, apenas a movimentação dos personagens retratados. Inclusive, diversas histórias no livro não incluem falas (ou “balões”, já que estamos no mundo das HQs).

Outro tema recorrente nesta coleção específica e que também remete aos modelos nus é a ampliação e mutação do corpo humano e seus limites – nas ilustrações, obviamente em escala menor. Mas, nos quadrinhos, essa elasticidade corpórea é levada ao extremo com obras como o conhecido “Minotauro” e “Moto”. Este último apresenta uma cena (e aqui o jargão cinematográfico é proposital, considerando que poderia estar em um filme do diretor David Cronenberg) intensa de mudança física do protagonista que demonstra a maestria nos traços de Laerte.

Apesar de não ter o humor como protagonista de forma tão marcada quanto as tirinhas que costuma publicar e que são consumidas por muitos, a sutileza e a ironia ainda se fazem presente, principalmente em histórias como “O Míssil” e “A Volta dos Palhaços Mudos”.

Assim, “Modelo Vivo” se torna uma obra que não apenas recupera algo que Laerte queria em si mesma com os desenhos, mas também é um livro que reapresenta seu “corpo de obra” (novamente expressão proposital considerando o tema!) para pessoas que queiram conhecer diversos aspectos dela.

Fã de memes, gostos muito ecléticos e colecionadora de trivias

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